quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Cem anos do Incêndio do Palacete do Visconde

O antigo palacete do Visconde de Guaratinguetá, Francisco de Assis e Oliveira Borges, foi construído no começo da segunda metade do século XIX, em local aprazível, caracterizada como chácara urbana, em pleno trajeto da antiga Estrada Real, caminho do Rio de Janeiro para São Paulo, onde, em 1827, Debret retatrtou a cidade de Guaratinguetá. 
Tal construção foi símbolo de um período de fausto econômico de algumas famílias, com a ascensão do café como principal produto da agrícola brasileiro, em arquitetura similar aos prédios rústicos das fazendas de café. 
Com a morte do titular, o palacete esteve nas mãos da viúva e de seus filhos, sendo que após a morte da referida o imóvel passou para o Governo do Estado de São Paulo, quando foi adaptado para ser a Escola Complementar e Normal de Guaratinguetá, em 1902, ali permancendo até 1916.
Nesse ano, o prédio foi invadido noturnamente por ladrões, que em cirscunstâncias estranhas e por medo de serem pegos acabaram por derrubar uma lamparina que desencadeou um incêndio de grande proporção, destruindo todo o prédio e seu acervo, ficando tão somente algumas paredes em pé. 
O projeto de adaptação do prédio, no inicio do século XX, foi realizado por Euclides da Cunha, obedecendo as linhas gerais de cunho educacional em voga na época. 
Os autores do incêndio, dois negros, foram presos e acusados, estando o processo crime referente depositado no Arquivo Judiciário do Museu Frei Galvão, contendo fotos e depoimentos.

domingo, 11 de setembro de 2016

Maria Augusta e a lenda urbana "A loira do Banheiro"

A loira do banheiro é talvez a lenda urbana de maior alcance social no imaginário atual do povo, mesmo com todo o pragmatismo originário dos meios de comunicação e da tecnologia. O que demonstra a força da oralidade e da memória na perpetuação de lendas e estórias, colocando em evidência as diversidades da história, ao indiciar verdades esquecidas e que fazem pensar em modos de vida ainda esquecidos pela história. Tais lendas e estórias muitas vezes estão associadas com outras estórias e histórias, mescladas e adaptadas sazonalmente de acordo com variadas características locais. Mas ela não é originária da história de Maria Augusta de Oliveira Borges, a filha do Visconde de Guaratinguetá.
A matriz informativa dessa lenda urbana repousa em ideiais de pavor e de medo diante da vida e da morte, de influência religiosa, alimentada pela religiosidade popular nos decorrer dos últimos séculos, como permanência perniciosa nos quadros de uma adaptação e assimilação pela modernidade.  A ideia de que uma mulher desencarnada e atormentada por uma vida atribulada permanecesse entre os seres humanos a suplicar por algo incompreensível, tornando-se visivel aos olhos incautos das pessoas, principalmente nos banheiros. 

Tal ideia, em certa constância, e em diversas regiões do país, além do exposto, sofreu processo híbrido com fatos transmitidos pela oralidade em lugares de memória específicos, representantes de uma época pontual, cujo lócus privilegiado perpassa pela perpetuação da questão do genêro em dado momento de uma sociedade, qual seja o discutível papel da mulher e sua tomada de posição diante de visões consolidadas pelas sucessivas heranças dos modos de viver e vivenciar o cotidiano. A grosso modo, foi adaptada e compreendida com costumes locais pré-existentes, passados por gerações, sofrendo transformações no seu transcurso temporal até chegar ao formato que se apresenta na atualidade.

Em Guaratinguetá, tal associação e dialética encontrou respaldo, notadamente, numa figura feminina expressiva localmente, personificadora de um segmento específico da sociedade imperial do rico período do café, quase na transição  econômica e social de substituição do escravismo e de maior imposição da mulher em confronto com os modelos comportamentais vigentes nos quadros explicativos de uma minoria  familiar  brasileira,   onde o cabeça de casal era o homem e a partir dele emanava decisões multiaplicáveis nos aspectos regentes dos membros de sua prole, ou qual seja, o destino de suas vidas. Prática, esta, recorrente e que recaía, sobretudo, na mulher, moldando a revelia, por muitas vezes e em muitos aspectos, sua maneira de agir, ora em submissão, ora em rebeldia, consequente de sofrimentos e sequelas permanentes, fosse um bem ou um mal, transcendendo para pós-morte. Como sempre foi visto, perpetuado e transmitido pela sabedoria popular como meio eficaz de modelo de punição para as regras societárias que ainda nos chegam após gerações do ocorrido. 

Desse modo, são percebidas características próprias entre memória local e a lenda urbana, sendo a última de bases modernas e a primeira de um passado já distante, embora ainda viva pela oralidade, principalmente por fomento das gerações nascidas na primeira metade do século XX. Cujo foco é ter uma moral como pano de fundo, com todos os elementos essenciais para a sua constituição e sedimentação. Embora, ao contrário, possa servir a diversos propósitos, para, em muitos casos, justificar algo além da moralidade .
A função da memória, porém, nesse caso, em face da lenda, é dar legitimidade para verdades sobejamente enraízadas na sociedade brasileira, entre outras premissas, acerca do medo, do controle de ideias, etc. Além de trazer em seu bojo as semelhanças para consubstanciar a lenda, embora sem considerar que a memória local de Guaratinguetá tenha originado a lenda da loira do banheiro, mas sim lhe serviu de sustentáculo para a sua perenidade pelo regime hibrido e sua consequente adaptação, omo é o caso de Maria Augusta de Oliveira  Borges no imaginário da população. Um arquétipo de vida, morte e permanência espiritual, que é modelo, que é história que possui moral e que demarca território bem definido a partir de um espaço físico constítuido em lugar de memória: o palacete e a escola. Na simbiose entre o privado e o público; entre o espiritual e a materialidade, fruto da eterna aliança, agonia e extâse  do homem com entidades superiores, além da compreensão racionalista, metafísica, fenomenológica ou existencialista. A história fartamente documentada, falada, assimilada e tornada verdadeira, em verdade incontestável, assim como é a ciência histórica, um gigante com os pés de barro.

Maria Augusta de Oliveira, era uma das filhas do Visconde de Guaratinguetá, comerciante, cafeicultor e grande proprietário de terras no município, cujas origens humildes foram marcas permeadas da rusticidade, por herança de memórias de vida colonial, transfiguradas em práticas e condutas tomadas de verdade, onde as ações levariam a cabo a vida de sua filha.  Cuja sorte, segunda entendimento popular, não foi das melhores. Que em  vida esteve  ligada ao palacete do Visconde de Guaratinguetá (imagem ao lado) e nas inúmeras fazenda que ele possuía por toda a região. E posteriormente ao edificio substituto do palacete, onde funcionou primeiro a Escola Normal, e na atualidade, desde 1919, o antigo Instituto de Educação Conselheiro Rodrigues Alves (EE Conselheiro Rodrigues Alves). 

terça-feira, 28 de junho de 2016

Paulo Pereira dos Reis Um escritor lendo a escrita do homem valeparaibano

Encetar analise sobre a produção intelectual de um determinado autor exige adentrar na sua compreensão de mundo, para reconhecer as construções mentais próprias e as influencias externas sofridas, em qualquer campo do conhecimento. E isso exige preparação anterior (leituras e analises) e um tratamento qualitativo adequado para com o material encontrado, para que não caia em mero resumo bibliográfico, em nada desejado por leitores exigentes.
Ao mesmo tempo, ao contrario do exposto, os escritos de pequena envergadura analítica e intelectual, destituídos do rigor cientifico exigido, são importantes como instrumentos de referencia ou fontes de informação, por vezes, privilegiadas. Servem de elemento introdutor para pesquisa e montagem de um estudo adequadamente estruturado e profundo nas suas ideias. Para uma biografia robusta revestida de inserções múltiplas e prosopográficas.
Desse modo, dificilmente pode se esperar de trabalhos dessa natureza uma isenção de quem escreve sobre um autor especifico, a não serem considerações pessoais de cunho ensaístico a iluminar proposições e hipóteses, originarias de pressupostos obtidos por leituras iniciais e superficiais.  Terá subjetividade inerente aos aspectos restritivos de um estudo inédito.
E, nesse sentido, o presente texto circunscreve-se a uma tentativa de demonstrar alguns aspectos biobibliográficos do escritor e historiador Paulo Pereira dos Reis, destacando da sua produção intelectual algumas ideias e perspectivas para a historiografia valeparaibana atual. Percebendo especificamente a operação de construção de uma de suas obras: “Lorena nos séculos XVII e XVIII”. Juntamente com outras publicações similares que expressam a preocupação do autor em estabelecer uma linha temática de pesquisa no Vale do Paraíba, a partir de fontes documentais inéditas, com fulcro no povoamento. Especificamente na região denominada pela geografia da época como “Lés-Nordeste”, cujo território pertenceu administrativamente, em tempos distintos, para as Capitanias de São Vicente e Santo Amaro, e vilas de Guaratinguetá e Lorena. Hoje conhecido como Vale Histórico, Serra da Mantiqueira e parte do vale fluminense (Rezende e adjacências).
A trajetória intelectual de Paulo Pereira dos Reis nos quadros da historiografia regional e emblemática do escritor valeparaibano. Uníssona, em primeira instancia, com os aportes metodológicos e analíticos largamente empregados no Brasil em quase todo o decorrer do século XX. A ciência positivista, cuja orientação objetiva e o farto uso de documentos eram balizas suficientes para reconstituir amplos cenários históricos. Sob a forma de uma escrita exaustiva, cronológica e descritiva.
Com apenas a diferenciação no aspecto relativo a pesquisa empírica, enquanto cautela no levantamento, seleção e processamento dos dados. Sobretudo na busca de fontes inéditas, cujo objetivo centrava-se na inserção totalizante dos dados num quadro mais amplo da historia de São Paulo e do Brasil. O que nem sempre foi uma pratica corrente entre os profissionais que escreveram sobre a região, notadamente se adentrar ao aspecto memorialístico encontrado em grande parte das obras desse gênero.
Além disso, uma trajetória previa similar a de outros profissionais das letras e da educação, cuja formação não residia propriamente na historia. O que faz pensar na origem dos interesses compartilhados por outros tantos intelectuais da região, cujo encontro residiu originalmente em registrar a historia da cidade, mas que no caso de Paulo Pereira dos Reis, transformou-se num sentido diretivo e cientifico de entender a formação do território e da população do Vale do Paraíba ao longo da historia.
Tendo como mote definir, ou pelo menos tentar, uma identidade própria do homem regional, ligado na perspectiva antropológica da formação identitária, organizada no espaço-tempo da historia desde os primórdios da Colônia, culminado, com isso, no registro social e econômico da ocupação da região e da sua atuação nesse meio (uma sociologia por assim dizer). Em melhor se referindo, na busca do sentido da colonização valeparaibana, de influencia Pradiana e Freyriana, em voga entre as décadas de 1930 e 1960.

Roteiro Biográfico

Nascido em Piquete a 25 de abril de 1919 e falecido em Lorena a 30 de marco de 1997, filho de Francisco Pereira dos Reis e de Emilia Costa Pereira dos Reis, de ascendência familiar originaria de varias cidades da região e de Paraty. Residindo, durante a infância na Vila Militar da Estrela, casa numero 45, próxima à Estação Ferroviária da Serrinha, a poucos metros do Hospital da Fabrica, dirigido pelos médicos Capitão Francisco Rodrigues de Oliveira e Tenente Alberto Antonio Marie Vaisse.
Seu pai era segundo químico da fábrica e desempenhou diversas funções na fabricação de ácidos sulfúricos, clorídricos e pólvoras de base simples.
Segundo Wanderley Gomes Sardinha[1], foi por esse tempo que teve vida leve e simples, registrados no livro de memórias do escritor[2]. Momentos que conviveu com seus colegas de escola do grupo escolar de Piquete, seus professores, Dona Maria Antonieta e o diretor Frederico Ramos, entre os anos de 1927 e 1931.
Posteriormente cursou o ginasial no Colégio São Joaquim, na mesma cidade, onde revelou sua inclinação para os estudos de maior envergadura e profundidade. No período coincidente com a Revolução Constitucionalista de 1932, que trouxe grandes dificuldades para a família. No São Joaquim foi aluno dos mestres Padre João Ravizza, um dos maiores latinistas que passaram pelo Colégio e Padre João Renaudim. Que grande influencia tiveram na formação clássica do autor. Levando-o a juntar-se, em anos posteriores, com outros estudantes, para publicar o jornal “O Acadêmico”. Que lhe proporcionou o gosto pelos estudos e pela publicação de artigos.
Entrou, em seguida, para o curso de magistério na Escola Normal Patrocínio São Jose, em 1938, em Lorena, onde terminou em 1940. E posteriormente diplomado em Ciências Jurídicas e Sociais e em Administração de Empresas, em 1967, na Universidade de Taubaté.
Seguindo carreira, exerceu concomitante, durante toda a vida, cargos docentes e administrativos burocráticos, conseguindo êxito em ambos.
Na área administrativa fez carreira na Caixa Econômica Estadual, onde ingressou como escriturário a 15 de outubro de 1940, chegando, por merecimento, ao cargo Maximo de superintendente, aposentando-se a 31 de maio de 1976.
No magistério teve eficiente vida profissional, tendo se destacado, primeiramente como professor normalista (1939-1940) e professor secundário de sociologia e de historia geral e do Brasil (1941-1962). Alem de ter ocupado a cadeira de Historia e Economia Política na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena.
Pertenceu a Academia Paulista de Historia (cadeira nº 20), Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Academia Cristã de Letras (cadeira nº 31), Academia Paulista de Letras, Sociedade de Estudos Históricos de São Paulo e da Sociedade Brasileira de Heráldica e Medalhística, Rotary Club de Lorena (fundador e presidente), Centro de Estudos Gustavo Barroso (FFCL – Lorena), Conselho Federal de Técnicos em Administração de São Paulo e PEN Centre de São Paulo. Foi um dos fundadores do Instituto de Estudos Valeparaibanos, em 1973, e presidente dessa entidade no período de 1978 a 1980.
E recebeu os títulos de Cidadão Honorário de Lorena e de Intelectual do Ano (1978), Troféu Piraquara, do Rotary Club.
Participou, ainda, de diversos cursos, entre eles: curso de extensão universitária sobre a “Formação da Personalidade”, curso da ADESG, curso de dinâmica de grupos para professores universitários, curso de Historia Regional do Vale do Paraíba e curso Sesquicentenário de Direito Tributário. E foi Assistente Técnico de Gabinete do Governo do Estado de São Paulo (1977-1979) e presidente da Comissão Estadual de Literatura do Conselho Estadual de Cultura.
            Deixou vários artigos e obras publicadas: Algumas Considerações sobre a Imigração no Brasil. Separata da Revista Sociologia. São Paulo, vol. XXIII, nº 1, março de 1961; A miscigenação e a Etnia Brasileira, Revista de Historia, n 48, São Paulo, 1961; O Colonialismo Português e a Conjuração Mineira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1964; Os Puris de Guaipacaré e Algumas Achegas à Historia de Queluz. Revista de Historia, 61. São Paulo, 1965; Guaipacaré, região e porto do Vale do Paraíba. Revista de Historia, 69. São Paulo, 1967; O Caminho Novo da Piedade no Nordeste da Capitania de São Paulo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1971; Introdução e Notas. In: RENDON, Jose Arouche de Toledo. Obras. São Paulo: Governo do Estado de S. Paulo, 1978 (Coleção Paulística, III); O Indígena do Vale do Paraíba. São Paulo: Governo do Estado de S. Paulo, 1978 (Coleção Paulística, XVI); As divisas Municipais entre Guaratinguetá e Lorena. Taubaté: Universidade de Taubaté, 1980 (Coleção Ensaios); O Vale do Paraíba nas Rotas das Expedições Vicentinas. Revista da Academia Paulista de Historia, 1, 1981; O Território Oriental da Vila de Lorena. Anais do Museu Paulista, tomo XXX, São Paulo, 1980-1981; Os Povoamentos de Taubaté, Núcleo Pioneiro, de Guaratinguetá e do seu Porto de Guaipacaré. Revista da Academia Paulista de Historia, 2, 1982; Lorena nos Séculos XVII e XVIII. São Paulo: Fundação Nacional do Tropeirismo (Cadernos Culturais do Vale do Paraíba).

Em busca da historia da cidade e da região

Logo após a Segunda Guerra Mundial, Paulo Pereira dos Reis começa a pesquisar sobre os primeiros dias de Piquete. A partir de não aceitar o fato de que a passagem de um piquete de cavalaria, em 1842, por Lorena, durante a Revolução Liberal de 1842, tenha dado origem à cidade de Piquete.
Descobre que Miguel Garcia Velho, bandeirante natural de Taubaté, em 1701, adentrando os sertões do Capivari alcança as alturas da Mantiqueira, junto ao Pico dos Marins, e chega ao rio Santo Antonio, no lado norte da elevação, onde encontra ouro. São as minas de Itajubá, cuja exploração demoraria um século. Estas recebem escravos oriundos do golfo da Guine e brancos portugueses e paulistas que, mais tarde, migram, principalmente para o sul, para as terras que daria origem à Piquete. Entre eles a família Pereira de Castro, Bicudo Leme e tantas outras, juntamente com os negros mineradores, que também contribuíram para o povoamento da futura vila. Era o local da saída do ouro do rio Santo Antonio para o Vale do Paraíba, através da garganta denominada do Embaú.
Na seqüência das pesquisas sobre sua terra natal descobre, também, que no ano de 1741 o lorenense Lazaro Fernandes, residente no bairro do Campinho, abre um caminho para as minas, subindo o rio que passa pela vila do Embaú, até alcançar sua nascente na Serra da Mantiqueira. O caminho curto, mas por onde grande parte do ouro era contrabandeada para outros locais, desviando-se do caminho oficial para Paraty. E por ele, onde o capitão das ordenanças Vilas Boas Pereira envia um piquete de cavalaria, sob o comando do alferes Manuel Domingues Salgueiro para estabelecer um registro na Serra da Mantiqueira e coibir o contrabando do metal, no de 1764. Quando inicia, segundo as pesquisas do escritor, o povoamento da vila de Piquete. Provando que a teoria sobre ter surgido durante a Revolução Liberal de 1842 era apenas especulação ou uma memória sem origem definida.
Dai por diante, destaca-se como pesquisador serio e comprometido em buscar a verdade sobre os fatos da sua cidade. Interesse do particular que o orientou rumo ao macro, delineando a ideia de estudar o povoamento e a formação do território valeparaibano, tendo como referencial a documentação inédita existente em arquivos espalhados pela região, por São Paulo e Rio de Janeiro. E auxiliado por suas observações acerca em demarcar o modo que se deu a constituição das vilas e suas relações com o Rio de Janeiro e com as leituras a respeito da identidade dos povoadores. Sua marca registrada de historiador que segue o fio de Ariadne com o objetivo de entender o homem valeparaibano, pela via da antropologia e da sociologia, com fulcro no Brasil Colônia. Cujo período era pouquíssimo estudado por aquela época, por falta de conhecimento documental e desinteresse. O que o levou a escrever obras e artigos de caráter e interesse regional e nacional. A exemplo da obra sobre o colonialismo português e a conjuração mineira, fatos amplamente imbricados e refletidos na região. Confirmando a tendência do particular para o geral, procurando entender os laços estruturais formadores de uma historia registrada na escrita do homem valeparaibano.

Construção dos escritos

O perfil de historiador do Professor Paulo Pereira dos Reis indentifica-se em vários aspectos com a de inúmeros homens das letras de sua época, notadamente das áreas do jornalismo, do direito e das letras. Mas diferencia-se por não compartilhar totalmente com o caráter memorialístico presentes em inúmeras obras existentes no Vale do Paraíba. Houve, desde cedo, a preocupação com uma temática única a ser construída e compreendida, ao contrario de eleger varias frentes de pesquisa estanques entre si. O que resultou na construção de uma linha de pesquisa cujo objetivo central foi a busca e o aprofundamento sobre as primeiras raízes coloniais, o seu desenvolvimento e movimento pela região, sem parecer meramente positivista. Embora se mostre, em certo tom, exaustiva, dado o grande numero de fontes de pesquisa utilizadas. O que não tira em nenhum momento o mérito dos seus estudos, mesmo quando se trata de observar uma implícita ideia de progresso, nos moldes positivistas, com evolução cronológica.
As contribuições de Paulo Pereira dos Reis pela escrita têm inicio, plenamente, na década de 1950, quando são impressas separatas de dois discursos (1953-1954) contendo depoimentos apresentados, respectivamente, na sessão cultural promovida pelo Grêmio Olavo Bilac, do Ginásio Estadual Arnolfo de Azevedo, e no Centro Cultural Odila Rodrigues, em comemoração à Proclamação da Republica. Mostrando suas primeiras preocupações, marcadamente filosóficas, acerca do progresso cientifico diante da felicidade humana e sobre os atos de governar em beneficio da comunidade (filosofia social)[3]. Anteriormente, em 1947, escreveu apenas o artigo “Non scholae sed vitae docendum” sobre educação. Voltando ao mesmo tema em 1956 com a tese “O ginásio e a realidade brasileira”, apresentada durante o Encontro de Educadores do Vale do Paraíba.
Mas é a partir da década de 1960 que se percebe uma linha direcionada para as questões de etnia, miscigenação e imigração no Brasil e na região, com viés sociológico, refletidas, sobretudo em dois escritos publicados nos periódicos: Revista Sociologia e Revista de Historia, respectivamente os artigos: “Algumas Considerações sobre a Imigração no Brasil” e “A Miscigenação e a Etnia Brasileira”. Textos que, por assim dizer, inauguram sua maturidade como escritor e pensador. Posteriormente refletores de uma fase de maior caráter histórico, revelando as etnias dos povoadores da região.
No primeiro artigo faz um panorama da imigração no Brasil, tratando sobre o ajustamento do imigrante em terras brasílicas, o crescimento demográfico em face da imigração no decorrer do tempo (com a utilização de estatísticas), as principais correntes a partir do período colonial, as imigrações internas em São Paulo, dando ênfase ao elemento japonês.
No seguinte a forte miscigenação ocorrida no país, com base em trabalho de Nina Rodrigues, destacando a indígena e a africana com a raça branca, fazendo estrita ligação com os diversos períodos econômicos no Brasil e sua influencia sobre o tema.
Doravante não mais publicaria temas dessa natureza, ficando um hiato de escritos entre 1962 e 1963, e a partir do ano seguinte ter como interesse geral a área histórica, com a publicação alentada e profunda sobre a conjuração mineira e a ação do colonialismo português, publicado na famosa serie “Brasiliana”, famosa por temas brasileiros centrados em folclore e historia. A obra parece denotar o interesse do escritor sobre um episodio estreitamente ligado ao Vale do Paraíba, por seus personagens envolvidos de origem na região. Procurando entender o processo da conjura em face da forte atuação de Portugal na economia aurífera brasileira.
E definitivamente volta a historia do Vale do Paraíba, de 1965 a 1971[4], quando inicia estudos acerca do povoamento da região de Lorena e os caminhos que dali seguiu para o Rio de Janeiro originando o povoamento e a criação de outras vilas que permaneceram sob o crivo administrativo daquela durante vários anos. Com exceção do artigo sobre os índios puri, que mais tarde seria alvo de estudos do autor, que em nenhum momento descuidou de tratar do elemento natural das terras brasileiras. O que acontece em 1979, com a publicação da obra “O Indígena do Vale do Paraíba”, publicada pelo Governo do Estado de São Paulo na clássica coleção Paulística, sob a direção de Péricles Eugenio da Silva Ramos, outro escritor nascido no Vale do Paraíba que proporcionou ao autor e a outro lorenense, Professor Jose Geraldo Evangelista, a divulgar publicamente seus escritos.
A obra, uma das suas mais importantes, é até hoje pioneira na região, em se tratando de estabelecer e estudar o elemento indígena residente na região nos primeiros tempos da colonização, notadamente os Puris, os Mandus e os Pirais.
Mas a sua maior contribuição foi “Lorena nos Séculos XVII e XVIII”, por ser uma obra de fôlego e que serve tanto como referencial de estudo histórico na região, como modelo de pesquisa historiográfica para as gerações posteriores.
Tal escrito pode ser definido como uma síntese profunda dos estudos realizados pelo autor em quatro décadas de pesquisa por arquivos de todo o Brasil. A aclamação e a continuidade de outros textos e publicações anteriores. O triunfo de uma linha de pesquisa fundamental para compreender a ocupação territorial e populacional do Vale do Paraíba. Fundamental para o entendimento da historia do Brasil, sobretudo as dinâmicas sociais instauradas a partir da colonização por Portugal.

Uma linha de pesquisa: o povoamento do Vale Paraíba

Os primeiros passos em direção ao interesse em desenvolver uma temática única e extensiva, que resultou na sua ultima obra, citada acima, dá-se no momento da tomada de consciência do autor acerca da inexistência de estudos genéricos e profundos sobre o povoamento do Vale do Paraíba, partindo do particular em direção ao geral. Isso na década de 1940, por conta do interesse em esclarecer as informações desencontradas incluídas em algumas obras de cunho histórico e geográfico, de teor enciclopédico e base memorialística. Notadamente nos relatos de viajantes estrangeiros e nos dicionários publicados no final do século XIX. Principalmente sobre o povoamento da região de Lorena em direção ao Rio de Janeiro.
Aliado ao fato do seu gostar pelo manuseio de velhos papeis e velhas crônicas e fazê-los falar. Arrancar-lhes capítulos de vidas e de esforços, para sentir o pulsar dos sentimentos que a poeira do tempo cobria. Deixando-se levar pelo tempo, como um historiador de gabinete na solidão dos arquivos e no silencio das bibliotecas[5]. Lendo e fichando inúmeras fontes primárias inéditas; comparando datas e analisando a coerência das informações. O autentico historiador e pesquisador “que tornava publica sua vivencia com os documentos”[6].
A primeira baliza foi estudar a vila de Lorena, na qual se integrava sua cidade natal, a vila de Piquete, tentando elucidar os primeiros sinais de povoamento. O que se dá com as primeiras pesquisas inéditas a respeito do Porto de Guaipacaré (Lorena) e sobre o elemento indígena na região. E posteriormente do elemento branco e português em suas correntes migratórias, que resultou na publicação de dois artigos específicos: “Os Puri de Guaipacaré e Algumas Achegas à Historia de Queluz” (1965) e “Guaipacaré, região e porto do Vale do Paraíba” (1967). E concluída, num primeiro momento, com a publicação da obra “O Caminho Novo da Piedade no Nordeste da Capitania de São Paulo” (1971). Complementado pela outra obra publicada bem posteriormente: “O Indígena do Vale do Paraíba” (1979). Obras que receberam ótima recepção nos meios acadêmicos pelo tratamento dado ao tema e as fontes. Aliado ao fato ressaltado pelo historiador Brasil Bandecchi, citando palavras de Odilon Nogueira de Matos, na apresentação de uma das obras de Paulo Pereira dos Reis, de que o objeto de estudo do historiador, os caminhos e o povoamento do Vale do Paraíba, era imprescindível para entender a dinâmica social, política e econômica, pois o “aludido caminho foi ‘via de acesso possível à colonização da área que servia e, assim, à possibilidade de nela estruturar-se, posteriormente, um tipo de civilização agrária estável’”[7] (REIS, 1980:11).
E ao enfrentamento encetado pelo autor ao procurar, pela primeira vez, para esclarecer o emaranhado das tribos indígenas existentes no período colonial, sem outros estudos, sobretudo arqueológicos. Ou seja, “de compor o ‘quadro etnográfico’ da Capitania de São Vicente”, problema esse que resultava da “confusão de etnômios, à notória mobilidade social dos grupos nativos, às lacunas e incongruências nas informações registradas e outros tantos empecilhos”[8] (REIS, 1980:11-12).
Obras e artigos teceram um primeiro panorama colonial no Vale do Paraíba, perceptível no plano geral elaborado pelo autor a partir de uma linha didática sucessória de acontecimentos e embates. E que, grosso modo, estão divididos em: As incursões quinhentistas às terras vicentinas; os caminhos do mar no litoral de São Vicente; as primeiras vilas vicentinas e o povoamento de Minas Gerais; a trilha dos Guianas de quinhentos e o Caminho Velho seiscentista; o caminho velho de São Paulo para as Minas e alternativas valeparaibanas; caminhos de Taubaté para o litoral; outros caminhos; caminhos abertos na extremidade oriental do Vale do Paraíba paulista; o caminho de Goiás; o caminho fluvial do Tietê para oeste; as penetrações para o sul[9].
E possibilitaram dar um perfil do povoamento das Capitanias de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e do sul do país, a partir dos caminhos que irradiaram povoamento. Contribuindo para entender como paulistas e os portugueses direcionaram suas conquistas tendo em vista a busca de uma economia favorável. Portanto, estudo inédito baseado em fontes documentais antes não utilizadas como as sesmarias e a serie “Documentos Interessantes”, publicada pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo. 
Após essa incursão geral e pontual, despontou uma segunda baliza localizada e pontual, pelo farto material levantado em arquivos diversos. Os estudos privilegiando um setor territorial específico, qual foi a região nordeste da Capitania de São Paulo, onde se assentava a vila de Lorena, que por caminho aberto por apoio da Coroa Portuguesa deu origem à outras futuras vilas, ligando a região paulista com a fluminense. E o resultado foi a obra “O Caminho Novo da Piedade no Nordeste da Capitania de São Paulo”, publicada em 1971, “destacando pormenores históricos sobre a construção, no século XVIII, de um ‘caminho novo’ destinado a ligar o Vale do Paraíba, em terras paulistas, ao litoral fluminense”[10]. Um dos mais movimentados. E vital para a economia da região no século seguinte[11].
O autor busca, nessa obra de fôlego, informações preciosas e concretas, não se perdendo em comentários inúteis. Revela os acontecimentos na seqüência em que se desenrolam. Exposto em sentido claro e objetivo, com fortes subsídios a Historia de São Paulo. Destacando a ação dos governadores da capitania em promover o progresso da região[12].

Contribuições para a construção a História e para o ensino na Região

Paulo Pereira dos Reis foi o intelectual que leu a escrita do homem colonial, adentrando na sua complexidade adversa ao tempo presente. Buscando pacientemente os seus rastros e fios, com o objetivo de traçar os discursos deles emanados. Resgatando os mais diversos perfis da historia paulista e valeparaibana.
Tal postura foi preponderante para atingir o objetivo que estabeleceu, priorizando uma linha de pesquisa única, sem perder o foco mais amplo da historia. Cujo resultado é paradigmático nos dias atuais, em múltiplos sentidos. Não apenas intrínsecos aos seus objetos em si. Assemelhando-se aos grandes historiadores do Brasil, como Rocha Pombo, Southey, Taunay, Varnhagen, Oliveira Lima, Joaquim Nabuco, Sergio Buarque de Holanda, Capistrano de Abreu, Raimundo Faoro, e tantos outros, guardadas as devidas proporções no que tange ao período e aos métodos utilizados.
O legado de suas obras, portanto, é constituída na atualidade não apenas por uma referencia de conhecimento da historia do Vale do Paraíba, mas por servir de instrumento amplo para discutir a pesquisa regional. Tendo em vista ser o conjunto de sua escrita, sob vários aspectos, pioneira e ousada, com ênfase prioritária nas inesgotáveis fontes documentais existentes nos arquivos brasileiros; embora possa ser dito que os seus escritos contenham densidade de informações transcritivas e descritivas. Pelo contrario, é uma escrita densa e prioritária, ensejando a necessidade de um retorno aos velhos alfarrábios. Podendo proporcionar olhar diferenciado e analítico sobre fontes demasiadamente conhecidas e inéditas, além do descritivo. Sem, embora, escravizar-se pela objetividade das palavras. Situação que o autor reconheceu alguns anos antes do salto qualitativo das novas metodologias. Bem anterior ao ciclo iniciado na década de 1970, quando as obras e os escritos acadêmicos afastaram-se das narrações e memórias locais, buscando novas releituras acerca do passado.
Nesse sentido, uma viagem pelas obras de Reis é reiterar suas atitudes e posturas em face da construção do conhecimento histórico. Sobretudo para as gerações acadêmicas no tempo presente. Onde inexiste formação adequada e conhecimento profundo. Notadamente se comparada aos grandes centros universitários.
Portanto, modelo de estudo histórico-regional para as universidades regionais. Principalmente na utilização dos documentos no campo da pesquisa. Levando os atuais acadêmicos a repensar o modus operandi. Bem como na necessidade de uma literatura própria, de largo alcance, cunho educacional, e de inúmeras possibilidades de temas de pesquisas preponderantes.
Algo que possa descortinar algumas situações implícitas na formação e na pratica da historia. Seja no campo docente ou no exercício do bacharelado. Embora sem pretender exaustão e total amplitude.
Ou seja, uma pequena exposição de ideias e preposto para alargar os horizontes de atuação dos novos profissionais da área, mesmo que em escala sectária. Na qual existe a imposição de recortes pontuais relevantes além texto histórico em si. Procurando perceber o universo mental do historiador que lê, pensa e analisa acerca de sua própria escrita.
A historiografia valeparaibana produzida nos últimos cinquenta anos é profícua e abrangente, o que é inegável. Porque todo estudo, obra ou escrito possui sua importância vital ao mostrar faces diversificadas de uma realidade. E negar isso seria como desconsiderar a multiplicidade e complexidade do ser humano agindo e interagindo no mundo a cada momento.
O avanço proporcionado por numerosos autores valeparaibanos é uma realidade e um incentivo para a continuidade da pesquisa no Vale do Paraíba. Pois, traz uma contribuição considerável, que estruturou um passado bem analisado e pensado, constituindo-se numa grande biblioteca especializada.
Mas na atualidade, o avanço da ciência histórica pede que seja repensado e redirecionado o trabalho de produção historiográfica na região. Que ainda esta longe de ser a ideal diante de novas possibilidades de pesquisa e de fontes ainda inéditas. E Paulo Pereira dos Reis contribui nesse sentido, porque o fez com conhecimento e eficácia. Périplo desconhecido pela maioria das pessoas e dos acadêmicos.
As variáveis ali presentes em seu trabalho desembocam em três grandes eixos de discussão, a saber: o retorno para as fontes documentais e a execução da pesquisa cientifica; o ensino da historia nos cursos superiores; o binômio professor/historiador; os resultados e a disseminação da produção historiográfica regional, com foco no trinômio universidade/escola/comunidade. Cada eixo interligado entre si, direcionado ao único fim de colocar em evidência e discussão as demandas do setor.  
O Vale do Paraíba foi desbravado a partir da primeira metade do século XVII, com a mudança de paulistas e a chegada de portugueses buscando novas terras e jazidas preciosas. Tornando-a um misto de região de passagem e de fronteira agrícola aberta. Propícia para o estabelecimento de famílias em busca de sedentarismo para viver dos mínimos vitais que a terra poderia lhe oferecer.
Com o deslocamento constante de homens e mulheres (direção São Paulo – Minas Gerais) e maior aumento de indivíduos circulantes, cresceu a necessidade de estruturar núcleos organizacionais capazes de oferecer uma rede administrativa adequada para atender as demandas crescentes dos serviços sociais e de justiça. O que, por uma serie de regras, se fez a partir do momento em que foram criadas oficialmente algumas vilas, como as de Taubaté, Pindamonhangaba e Guaratinguetá.
Essa realidade transportou todo o complexo aparato burocrático, jurídico e administrativo português para as vilas da região. Sendo a justiça e a administração tuteladas pelos edis das câmaras municipais, pelos juízes nomeados e por outros funcionários designados pela Coroa. Com a tarefa de registrar queixas, discutir problemas e conduzir processos das mais diversas naturezas: crimes, inventários, testamentos, etc.
E tais registros, por sua vez, devidamente guardados, transformaram-se em testemunhas escritas do cotidiano do valeparaibano colonial. No qual os protagonistas deram o seu demonstrativo de vida perante a história. Marcando conflitos, embates e pensamentos que hoje são constituintes de um reflexo do real.
A escrita feita pela pena dos alfabetizados e letrados configurada em acervos importantíssimos para o resgate do pensamento passado, a partir do crivo analítico do historiador que queira, através de pressupostos teóricos e metodológicos adequados, construir e reconstruir a realidade valeparaibana.
Por esta razão, e por outros motivos, é que a importância das fontes primárias acaba por se constituir num pressuposto importante para a pesquisa. Para que com elas se possa realizar leitura, releitura e interpretação do passado. Revendo conceitos, verdades, descobrindo novos temas, recortes e outras fontes de pesquisa inéditas. Daí, também, a necessidade de preservação e divulgação.
Paulo Pereira dos Reis percebeu essa premissa e demonstrou em suas obras uma efetiva atuação diretiva nesse sentido. E com isso pode trazer à tona o ineditismo nas informações e nas fontes, cujo exemplo a historiografia regional ainda na absorveu na totalidade. Mesmo porque, o numero de arquivos e documentos são imensos de possibilidades de pesquisa. Embora tenhamos muitas falhas físicas e cronológicas nos mais variados acervos de origem administrativa e judiciária.
Nesse ponto o autor contribui, mesmo que inconsciente, para alicerçar uma discussão em torno da necessidade de conhecer e reconhecer as fontes. Nos seus aspectos intrínsecos e extrínsecos[13].
Pouquíssimo realizou-se nessa área no Vale do Paraíba, com a exceção de algumas atuações pontuais[14], mas não correspondente ao ideal de conservação do patrimônio material. Diferentemente da realidade européia, onde existe um riquíssimo acervo conservado, disponível e constantemente utilizado; microfilmados, digitalizados e replicados em diversos suportes de mídia e pela internet.
Reis observou e aprendeu, através da prática cotidiana da pesquisa, essa realidade, ao percorrer arquivos citadinos e estaduais. Aprendendo a paleografia e a tipologia das fontes. Onde e como foram produzidas, quais foram os seus agentes. Sabendo corretamente onde buscar a informação adequada para o seu objetivo. E correlacionar e reconhecer as relações hierárquicas entre elas, sobretudo a respeito da administração portuguesa no Brasil. Possibilitando estruturar eficientemente seus estudos e suas obras. Que deveria ser o mote integrante da formação e da pratica efetiva do historiador.
Mas que mostra, na atualidade, deficiência lacunar que impede o desenvolvimento profundo das letras históricas da região. Notadamente entre os que já possuem currículo na área de pesquisa e nos cursos superiores. Que por sua vez, desprezam, por uma série de motivos, o ensino adequado para o bacharelado. Obrigando opção pelo autodidatismo, ou pelo amadorismo, destituídos de previa preparação e conhecimento. Embora já existam a décadas profissionais empenhados nessa mentalidade de reconhecer tais ideias.
E o Vale do Paraíba é um celeiro para a produção historiográfica, como demonstra as obras de Paulo Pereira dos Reis, principalmente no lacunar período colonial. O que faz incoerente manter-se alheio a este estado de coisas. Ideia complementada pelos exemplos das universidades de grande porte do Brasil, por seus cursos de pós-graduação.
Nelas percebe-se haver salto qualitativo na utilização das fontes de pesquisa e nos temas tratados, mesmo que com ressalvas. Temas diversificados amparados em pesquisas realizadas no Arquivo Nacional, na Biblioteca Nacional e em arquivos estaduais. Como no Arquivo Publico do Estado de São Paulo, que viu o seu número de consulentes duplicarem no decorrer dos últimos vinte anos.
O que seria notório se fosse reconhecido e aplicado no Vale do Paraíba, mediante uma mudança de mentalidade e por projetos de envergadura diretiva e objetiva, cujo escopo seria subsidiar pesquisas, criar arquivos, salvar e conservar documentos, disponibilizar e socializar o patrimônio material e imaterial.
E Reis, novamente, tinha consciência dessas demandas, que em certa medida, esta refletida na introdução da obra Lorena nos Séculos XVII e XVIII: “Na investigação e estudo para o conhecimento dos fatos deste livro, alem de aproveitar os seus [leia-se: meus] conhecimentos de Historia regional, procurei a documentação existente com pertinácia e paixão pela pesquisa. Entretanto, apesar do trabalho persistente, do empenho e dedicação de tantos anos na coleta e organização dos dados e informes diversos, ocorreram, alem de minhas limitações, os naturais percalços das pesquisas realizadas em registros escritos muitas vezes esparsos e incompletos” (REIS, 1980:17).
Portanto, demandas essas a serem evitadas pelas futuras gerações, procurando todos os meios para saná-las. Aproveitando os instrumentos disponíveis (aprendizado e capacitação – presencial/online), para melhor preparar os profissionais da região, formados ou não. Dando-lhes a oportunidade de conhecer as fontes, os arquivos, a paleografia e as novas tendências de pesquisa. Como sempre fizeram, esporadicamente, o autor dessas linhas[15] e Paulo Pereira dos Reis[16].
Desse modo, seria irreversível o retorno para as fontes documentais, como fator primordial para a construção de novos conceitos e ideias acerca das histórias locais. Permitindo, pela releitura, refutar verdades solidificadas e não correspondentes com a representação do passado[17]. Ou que pelo menos se aproxime de um status requerido na atualidade pela ciência histórica; e que não seja nos moldes anteriores, do discurso pelo discurso sem o crivo de uma critica consistente. Isso porque a escrita do passado possui armadilhas ao escamotear ou velar as reais intenções do desenrolar dos fatos. Cabendo metodologias próprias, suportes teóricos adequados e conhecimento de fontes diversas.
Como por exemplo, o cuidado que se deve ter com as falas do viver em colônia. Abundantemente encontradas nos processo judiciais: o depoimento das testemunhas, dos envolvidos e das autoridades. Manancial rico de informações para interpretar e construir o mundo mental dos séculos XVII a XIX. E que Reis teve contato em documentos de outra natureza, entre eles os ofícios dos Governadores da Capitania de São Paulo[18].
Por outro lado, estendendo essa realidade, sobressai outro aspecto emblemático dos problemas existentes. Especificamente no ensino acadêmico, e particularmente nos cursos de historia da região.
A grade curricular não contempla matérias essenciais para a pesquisa histórica, priorizando a formação do professor em detrimento do bacharel. Duas realidades estanques que dissocia a intrínseca ligação entre ambas.
Ter a formação de pesquisador e professor, ao mesmo tempo, significa, entre tantos outros valores, a contínua produção, reprodução e critica do conhecimento. Nos arquivos ou em campo, pode-se construir a historia e na sala de aula pode-se constituir um laboratório de discussão e crítica dessa construção. O professor pesquisador atualiza-se produzindo e, ao mesmo tempo, dialoga com alunos e parceiros sobre as chances de revigoração dos resultados. Não fica reproduzindo discursos ultrapassados. E o ensino deixa de possuir caráter sectário e assume uma postura cientifica e critica diante dos desafios do século XXI.
Estimulando a reversão de outra face do mesmo tema, que está baseada no trinômio articulado universidade/escola/comunidade. Por onde deve circular ciclicamente todo o conhecimento produzido.
Isso se vale principalmente, e que é tão obvio, pela desarticulação notória entre os itens, pois o que se ensina e se produz na universidade fica restrito a um pequeno âmbito de detentores do saber, encerrado numa linguagem culta. E muito menos repassado para os livros didáticos e nem para o professor, afetando indiscutivelmente a formação de indivíduos comuns e os destinos da comunidade em todos os seus setores primordiais. Impedindo, sobretudo, o ressonar dessa realidade em outras esferas profissionais, o qual seja, onde o historiador pode trabalhar: museus, arquivos, organizações sociais de cultura e domínios abrangentes da economia criativa. Fundamentais para a socialização do conhecimento.  
Nesse sentido, chega-se a conclusão de que o conjunto das obras de Paulo Pereira dos Reis e de muitos outros historiadores, que tentaram entender o mundo dos antepassados, pode oferecer interpretações diversas, sugerindo análises sobre tudo o quanto cerca a produção do conhecimento histórico. É preciso pensar, mas importante mesmo é mudar para as próximas gerações, pois à história cabe também realizar transformações.

Referências

Fontes

SARDINHA, Wanderley Gomes. Paulo Pereira dos Reis – breve perfil histórico. Pasta Paulo Pereira dos Reis. Arquivo do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV). Lorena-SP: Centro Universitário Salesiano, s.d.

Bibliografia

CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. Uma Introdução à Historia. 5 ed. São Paulo: Brasiliense, 1986.
EVANGELISTA, Jose Geraldo. Paulo Pereira dos Reis. In: Lorena Cultura, out. 2000. Pasta Paulo Pereira dos Reis. Arquivo do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV). Lorena-SP: Centro Universitário Salesiano.
HERRMANN, Lucila. Evolução da Estrutura Social de Guaratinguetá num Período de Trezentos Anos. São Paulo: IPE/USP, 1986. (ed. fac-similada).
REIS, Paulo Pereira dos. Algumas Considerações sobre a Imigração no Brasil. Separata da Revista Sociologia. São Paulo, vol. XXIII, nº 1, março de 1961.
_____________________. A miscigenação e a Etnia Brasileira. Revista de Historia, nº 48, São Paulo, 1961.
_____________________. O Caminho Novo da Piedade no Nordeste da Capitania de São Paulo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1971.
_____________________. O Colonialismo Português e a Conjuração Mineira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1964.
_____________________. Guaipacaré, região e porto do Vale do Paraíba. Revista de Historia, nº 69. São Paulo, 1967.
_____________________. O Indígena do Vale do Paraíba. São Paulo: Governo do Estado de S. Paulo, 1978 (Coleção Paulística, XVI).
_____________________. Lorena nos Séculos XVII e XVIII. São Paulo: Fundação Educacional Objetivo/Fundação Nacional do Tropeirismo, 1980.



[1] SARDINHA, Wanderley Gomes. Paulo Pereira dos Reis – breve perfil histórico. Pasta Paulo Pereira dos Reis. Arquivo do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV). Lorena-SP: Centro Universitário Salesiano, s.d.
[2] REIS, Paulo Pereira dos. Reminiscências Piquetenses. In: SARDINHA, Wanderley Gomes. Paulo Pereira dos Reis – breve perfil histórico. Pasta Paulo Pereira dos Reis. Arquivo do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV). Lorena-SP: Centro Universitário Salesiano, s.d.
[3] O presente artigo não dá ênfase aos dois textos inaugurais do autor (1953-1954) por ser extrínseco ao objetivo da analise, qual seja, revelar os seus escritos de cunho histórico.
[4] Entre os escritos, a obra “O Caminho Novo da Piedade no Nordeste da Capitania de São Paulo”, que recebeu elogios da critica especializada, pelo ineditismo da documentação utilizada e que representou importante contribuição a historia das comunicações na região e fez com que pudesse ser estruturada uma agricultura estável. Entre elas a cultura do café em Bananal, região que outrora pertenceu aos quadros administrativos da vila de Lorena.
[5] EVANGELISTA, Jose Geraldo. Paulo Pereira dos Reis. In: Lorena Cultura, out. 2000. Pasta Paulo Pereira dos Reis. Arquivo do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV). Lorena-SP: Centro Universitário Salesiano.
[6] Ibd., p. 3.
[7] REIS, Paulo Pereira dos. Lorena nos Séculos XVII e XVIII. São Paulo: Fundação Educacional Objetivo/Fundação Nacional do Tropeirismo, 1980.
[8] Palavras do professor Egon Schaden na apresentação da obra: O Caminho Novo da Piedade no Nordeste da Capitania de São Paulo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1971.
[9] A estrutura esquemática apresentada consta do artigo do autor: Caminhos de Penetração da Capitania de São Paulo. Separata dos Anais do Museu Paulista, tomo XXXI, 1982. Instituto de Estudos Valeparaibanos. Pasta Paulo Pereira dos Reis. Centro Universitário Salesiano de Lorena.
[10] BOVO, Luiz Sartorelli. Evocando Fatos e Homens. Pasta Paulo Pereira Pasta Paulo Pereira dos Reis. Arquivo do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV). Lorena-SP: Centro Universitário Salesiano, s.d.
[11] O Caminho Novo teve sua construção iniciada na primeira metade do século XVIII, contrapondo o Caminho Velho, utilizado desde o final do período quinhentista, ligando Minas Gerais a Paraty, para escoamento do ouro. Todos os caminhos construídos a partir de picadas indígenas.
[12] BOVO, Luiz Sartorelli. Evocando Fatos e Homens. Pasta Paulo Pereira Pasta Paulo Pereira dos Reis. Arquivo do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV). Lorena-SP: Centro Universitário Salesiano, s.d.
[13] Aqui não se trata de falar dos métodos de pesquisa nos moldes hermenêuticos propostos pela historia positivista de critica interna e externa, que são pressupostos diferentes. Diz respeito ao conhecimento da tipologia das fontes e de suas divisões e subdivisões internas, para reconhecer as informações nelas registradas.
[14] Para citar algumas cidades com algum desenvolvimento nesse item existem arquivos organizados nas cidades de Jacareí, Taubaté, Guaratinguetá, Cruzeiro e Queluz. Embora ainda não tenham alcançado patamares de excelência, restando muito por fazer.
[15] Alguns estudos dirigidos e cursos de curta duração foram ministrados no Centro Universitário Salesiano (UNISAL-Lorena) nos anos de 2011-2012, para os alunos do curso de graduação em Historia, tendo como fulcro algumas noções de paleografia e de fontes primarias, etc.
[16] Paulo Pereira dos Reis publicou nesse sentido o artigo “Pesquisa Histórica no Vale do Paraíba: metodologia, enfoque e fontes”. Boletim do Instituto de Estudos Valeparaibanos, 1986. In: Pasta Paulo Pereira dos Reis. Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV). Lorena: Centro Universitário Salesiano. Fruto da aula ministrada pelo escritor em 09 de agosto de 1986 no Curso de Historia do Vale do Paraíba.
[17] Como exemplo robusto vale citar a obra de Lucila Herrmann “Evolução da Estrutura Social de Guaratinguetá num período de Trezentos anos”. Considerada pioneira e obra-prima dos estudos sócio-históricos no Vale do Paraíba (1948), possui varias incoerências informacionais e redundâncias generativas conclusivas sobre certos aspectos relacionados com a estruturação e partilha das propriedades fundiárias na região. A autora afirma que o sistema de partilha adotado no Brasil correspondia ao mesmo existente em Portugal, qual era o Morgadio. Um estudo seriado nos inventários de varias localidades aponta para outra realidade, que foi a partilha igualitária, sendo 50% da viúva e outros percentuais restantes para os herdeiros descendentes ou nomeados. Diferente do regime do morgadio que contemplava o filho primogênito, principalmente no tocante as propriedades fundiárias e capelas. Vê-se nesse sentido uma lógica para o retorno aos documentos. Sem citar inúmeros outros casos não cabíveis no presente artigo.
[18] Documentos publicados pelo Arquivo Publico do Estado de São Paulo, denominado “Documentos Interessantes para a Historia e Costumes de São Paulo”.